Além dos CIs: Construindo Portas Lógicas com Transistores Discretos

Introdução

Quando começamos a estudar Eletrônica Digital, somos rapidamente apresentados às tabelas-verdade e às funções clássicas AND, OR, NAND, NOR e NOT. Logo somos apresentados a símbolos que representam operações da álgebra booleana ou circuitos integrados que operam seguindo um conjunto de lógicas embutidas.

Mas você sabia que todas as portas lógicas modernas são implementadas por meio de associações de transistores?

Se você quer aprender ou relembrar como implementar portas lógicas por meio de transistores, esse artigo é pra você!

Componentes Discretos

Para compreender a eletrônica de forma profunda e dominar como as transições de estado ocorrem no silício, nada supera o exercício de construir essas portas no nível físico mais fundamental: utilizando componentes discretos.

Neste artigo, vamos dar um passo atrás dos circuitos integrados encapsulados e explorar como estruturar as 5 portas lógicas primárias utilizando transistores NPN comuns (como o BC547), resistores e botões.

O Princípio do Transistor como Chave

Usar o transistor como chave é um dos conceitos mais fundamentais da eletrônica moderna. É essa aplicação simples que serve de ponte entre o mundo físico (analógico) e o mundo dos computadores (digital).

Se os transistores operassem apenas como amplificadores lineares, nós teríamos ótimos rádios e sistemas de som, mas os computadores, smartphones e sistemas embarcados como conhecemos simplesmente não existiriam.

O segredo para entender a lógica discreta está em enxergar o transistor bipolar de junção (TBJ) operando fora da zona linear de amplificação. Nós o forçamos a trabalhar em dois extremos:

  1. Corte (Nível Lógico 0 / LOW): Sem corrente aplicada à base, o caminho entre Coletor e Emissor se comporta como uma chave aberta.
  2. Saturação (Nível Lógico 1 / HIGH): Com uma corrente suficiente injetada na base, o transistor satura, comportando-se como uma chave fechada.

Para nossos experimentos, utilizamos uma alimentação de 9V, para facilitar a implementação dos circuitos sem a necessidade de fonte de bancada. Cada entrada lógica será controlada por um botão push-button conectado à base do transistor por meio de um resistor de limitação de 10 kΩ.

A Figura 1 mostra uma associação de resistores, um transistor, botão e LED. Quando o botão não está pressionado, temos um circuito aberto na base do transistor que está associado a um resistor de 10 kΩ. O coletor do transistor, por outro lado, está associado a um resistor de 220 Ω que, por sua vez, está conectado à fonte de tensão de 9V. Por fim, o emissor do transistor está conectado a uma associação de dois resistores de 10 kΩ em paralelo e um LED, que por sua vez estão conectados ao negativo da fonte de 9V. Nessas condições, o transistor funciona como uma chave aberta.

Quando o botão é pressionado, o resistor de 10 kΩ associado à base do transistor é conectado em série ao resistor de 220 Ω, fechando o circuito, injetando uma corrente na base do transistor. Nessas condições, o transistor funciona como uma chave fechada e o LED é ligado, emitindo luz.

Figura 1. Circuito que permite o uso do transistor BC547 como chave.

A Porta AND (E)

Na lógica digital, a porta AND exige que todas as entradas estejam em nível lógico alto para que a saída seja ativada.

Implementação Discreta:

Para obter o comportamento da porta AND, conectamos dois transistores NPN em série.

  • O coletor do Transistor 1 (Q1) é conectado a um resistor de 330 Ω que por sua vez é conectado no positivo da fonte.
  • O emissor de Q1 é conectado diretamente ao coletor do Transistor 2 (Q2).
  • O emissor de Q2 é conectado a uma associação em paralelo onde um dos ramos consiste em um resistor de 4k7 Ω e o outro ramo consiste em um resistor de 220 Ω conectado em série a um LED vermelho, que indica o nível lógico da saída. A outra extremidade desses dois ramos é conectada ao GND.

Como funciona: Se apenas uma das chaves for pressionada, o circuito permanece interrompido pelo outro transistor em corte. A corrente de alimentação só alcançará o LED de saída quando Q1 E Q2 estiverem simultaneamente saturados. Isso ocorre apenas quando os dois botões são pressionados ao mesmo tempo, conforme ilustram as Figuras 2 e 3.

Figura 2. Associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica AND. (link)

Figura 3. Esquemático representando a associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica AND.

A Porta OR (OU)

A lógica OR determina que a saída será alta se pelo menos uma das entradas for verdadeira.

Implementação Discreta:

Para a lógica OR, os transistores devem ser posicionados em paralelo.

  • Os coletores de Q1 e Q2 são interligados e conectados ao positivo da bateria de 9V por meio de um resistor de 330 Ω.
  • Os emissores de Q1 e Q2 também são interligados juntos e conectados a uma associação em paralelo que consiste em um resistor de 4kΩ e um LED vermelho que indica o nível lógico da saída. A outra extremidade da associação em paralelo é conectada ao GND.

Como funciona: Se a base de Q1 OU a base de Q2 receber tensão, o respectivo caminho fecha e conduz a corrente da fonte diretamente para a saída, acendendo o LED indicador, conforme ilustram as Figuras 4 e 5.

Figura 4. Associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica OR.

Figura 5. Esquemático representando a associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica OR.

A Porta NOT (Inversora)

A porta NOT possui apenas uma entrada e inverte o sinal: transforma 0 em 1, e 1 em 0.

Implementação Discreta:

A inversão de sinal é obtida alterando o ponto de leitura: saímos do emissor e passamos a ler o coletor.

  • O emissor do transistor é conectado diretamente ao terra (GND).
  • O coletor é conectado ao positivo da fonte (9V) através de uma associação de resistores (330 Ω e 220 Ω). Além disso, o coletador é conectado ao LED indicador do nível lógico da saída, que por sua vez é conectado ao GND.

Como funciona: Quando o botão está solto (Entrada = 0), o transistor está em corte (chave aberta). Nenhuma corrente flui por ele, fazendo com que a tensão no coletor suba. Ao pressionar o botão (Entrada = 1), o transistor satura, fazendo fluir corrente elétrica pelo pelo circuito, reduzindo a tensão do coletor para próximo de 0V (Saída = 0), conforme mostram as Figuras 6 e 7.

Figura 6. Implementação da porta inversora (NOT) usando um transistor BC547.

Figura 7. Esquemático representando a implementação da porta inversora (NOT) usando um transistor BC547.

A Porta NAND (NÃO E)

A NAND é uma porta universal cuja saída permanece em nível HIGH o tempo todo, exceto quando ambas as entradas forem ativadas.

Implementação Discreta:

Combinamos o arranjo em série da porta AND com a técnica de leitura de coletor da porta NOT.

  • Colocamos os dois transistores Q1 e Q2 em série, com o emissor de Q2 aterrado.
  • O coletor de Q1 se conecta ao polo positivo da bateria de 9V por meio de uma associação de resistores.
  • O LED, que representa o nível lógico, é conectado ao coletor de Q1 e ao GND.

Como funciona: Se nenhuma ou apenas uma chave for pressionada, o caminho para o GND está bloqueado. A saída permanece em nível alto através da associação de resistores conectados ao positivo da bateria. Somente quando ambos os transistores saturam juntos, a saída é conectada diretamente para o GND, apagando o LED, conforme ilustra as Figuras 8 e 9.

Figura 8. Associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica NAND. (link)

Figura 9. Esquemático representando a associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica NAND.

A Porta NOR (NÃO OU)

A porta NOR inverte a lógica clássica da porta OR: sua saída só é HIGH quando todas as entradas forem idênticas a zero.

Implementação Discreta:

Utilizamos o arranjo em paralelo da porta OR, mas coletamos o sinal a partir do coletor do primeiro transistor.

  • Os coletores de Q1 e Q2 são curto-circuitados e ligados ao positivo da bateria através de um único resistor de carga.
  • Ambos os emissores são conectados ao GND.
  • A saída, representada pelo LED, é conectada no ponto comum dos coletores.

Como funciona: O LED indicador conectado à saída permanecerá aceso enquanto os transistores estiverem abertos. Se qualquer um dos botões for pressionado, o transistor correspondente fechará o circuito, desviando toda a corrente da associação de resistores direto para o GND e derrubando a tensão de saída a zero, conforme ilustram as Figura 9 e 10.

Figura 10. Associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica NOR. (link)

Figura 11. Esquemático representando a associação de dois transistores BC547 para implementação da porta lógica NOR.

Conclusão

Implementar portas lógicas utilizando transistores discretos é uma ótima forma de desmistificar o funcionamento interno de processadores atuais. Ao replicar as lógicas AND, OR, NOT, NAND e NOR com componentes simples como o transistor BC547, deixamos de apenas aceitar as regras lógicas e passamos a entender o comportamento do circuito elétrico que torna isso possível. Embora circuitos integrados dedicados e os microcontroladores dominem o cenário atual de projetos devido à densidade de integração, a lógica discreta preserva sua importância como fundação de drivers de potência, circuitos de intertravamento e condicionamento de sinais.

Referências

[1] Making Logic Gates From Discrete Components – The Learning Circuit (link)

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