A Técnica do Salto de Frequência (FHSS)

Este post faz parte da série Spread Spectrum

O artigo anterior nos apresentou a ideia revolucionária e a engenhosidade da atriz de Hollywood Hedy Lamarr e seu parceiro, George Antheil, concretizada em sua patente de 1942 (Secret Communication System).

A proposta original — usar saltos de frequência para guiar torpedos durante a Segunda Guerra Mundial e evitar interferências — era baseada em um princípio simples e brilhante: ao mudar de frequência constantemente, o inimigo não consegue bloquear sua mensagem em um único canal.

A patente de 1942, propôs que um sinal de rádio pudesse saltar entre frequências para enganar o inimigo, não foi apenas uma curiosidade da Segunda Guerra Mundial; ela forneceu a fundação para uma das mais robustas e essenciais tecnologias de comunicação moderna: o Frequency Hopping Spread Spectrum (FHSS).

Neste artigo, passaremos da inspiração histórica à concretização na engenharia, explorando como a técnica de evasão do FHSS se consolidou como um mecanismo que garante a estabilidade e a resiliência de tecnologias como Bluetooth, sistemas de Comunicações Militares e protocolos de IoT Industrial (em ambientes ruidosos de chão de fábrica).

Conectando a História à Engenharia

No artigo anterior, exploramos a origem do conceito de Spread Spectrum (SS) com a invenção patenteada por Hedy Lamarr e George Antheil, motivada pela necessidade de proteger torpedos contra interferência durante a Segunda Guerra Mundial. A ideia intuitiva de trocar o canal de transmissão de forma pseudoaleatória e coordenada para evitar interferências propositais (jamming) é, na engenharia moderna, o exato conceito do Frequency Hopping Spread Spectrum (FHSS).

Diferente das modulações mais tradicionais — como AM, FM, PSK ou FSK — que concentram a energia do sinal em uma faixa de frequência estreita, o Spread Spectrum faz o oposto: espalha intencionalmente o sinal de informação por uma faixa muito maior de frequências.

Figura 1 – Espectro estreito resultante da modulação em amplitude (AM)

Espalhar o espectro é, essencialmente, abrir mão de eficiência espectral para ganhar em robustez e segurança. Em vez de concentrar energia em uma faixa estreita e previsível, as técnicas de SS distribuem o sinal de forma controlada.

Figura 2 – Comparação entre um sinal concentrado e um com espalhamento espectral (Spread Spectrum)

Modulação de Banda Estreita

Para que a comunicação sem fio ocorra, a informação (seja voz ou dados) precisa ser transportada por uma portadora.

Basicamente, o sinal de informação de baixa frequência, também conhecido como sinal de banda estreita, é usado para modificar (ou modular) as características de uma onda de rádio de alta frequência, chamada portadora (carrier).

Em sistemas tradicionais, o sinal de banda estreita é designado a uma única portadora, concentrando toda a energia de transmissão em uma faixa espectral previsível e limitada.

É justamente essa concentração que torna os sistemas convencionais vulneráveis: ao bloquear aquela frequência específica (jamming), toda a comunicação é interrompida.

O Mecanismo de Troca de Frequência (FHSS) 

O FHSS adota uma abordagem dinâmica: em vez de espalhar o sinal de forma contínua, ele salta rapidamente entre várias frequências dentro de uma banda predefinida.

A transmissão do sinal de banda estreita muda periodicamente de portadora, seguindo uma sequência pseudoaleatória pré-determinada e conhecida apenas pelo transmissor e pelo receptor. O sinal é transmitido em um canal por um curto período de tempo, antes de pular para a próxima frequência.

Figura 3 – Frequency Hopping Spread Spectrum – FHSS

O sistema atua como um rádio que está sempre mudando de estação. Essa estratégia reduz drasticamente os efeitos de interferências persistentes, pois o sinal não permanece em uma única frequência por tempo suficiente para ser bloqueado de forma contínua.

Sequência de Salto e Tempo de Permanência (Dwell Time)

O sucesso do FHSS depende de dois parâmetros essenciais: a Sequência de Salto e o Tempo de Permanência (Dwell Time).

A Sequência de Salto é o algoritmo pseudoaleatório que define a ordem exata da troca de frequências. Apenas transmissor e receptor conhecem essa sequência, o que permite a reconstrução da informação original.

O Tempo de Permanência (Dwell Time) é o intervalo exato que o sinal usa uma frequência antes de saltar. Este parâmetro influencia diretamente a latência e a probabilidade de colisão:

  • Se for muito longo, o sistema fica vulnerável a ataques naquela frequência.
  • Se for muito curto, aumenta-se a robustez, mas exige-se hardware de sincronização mais rápido.

Imunidade Efetiva e Coexistência Espectral e Resistência ao Multipercurso

Quando um dispositivo malicioso tenta um ataque de interferência, saturando um canal fixo, ele só terá sucesso durante o breve Dwell Time. Imediatamente após o salto, o sistema deixa a frequência interferida e transmite em um novo canal.

Outro benefício importante, muitas vezes esquecido, é a resistência ao multipercurso. Este fenômeno é comum em ambientes urbanos e industriais, onde reflexões do sinal em paredes ou máquinas podem degradar a qualidade da recepção. Ao saltar de frequências, o FHSS mitiga este efeito evitando sofrer desvanecimento (fading) devido a essas reflexões.

Figura 3 – Representação de Multipath Interference

Além disso, o FHSS facilita a coexistência espectral. Como o sinal ocupa apenas uma fração estreita da banda total a qualquer momento, ele minimiza a interferência mútua com outros sistemas, permitindo que vários dispositivos (como fones Bluetooth e roteadores Wi-Fi) operem no mesmo espaço físico.

Desafios de Sincronização e Aplicações Típicas

Apesar de sua robustez, o FHSS impõe limitações técnicas e desafios operacionais:

  • Sincronização Temporal Crítica: Transmissor e receptor devem acompanhar a sequência de salto com precisão. Qualquer falta de sincronia causa perda imediata de comunicação.
  • Overhead de Controle: Há um custo de processamento para rastrear e reagendar os saltos.
  • Redução de Throughput: Pode haver redução na taxa de dados efetiva devido às pequenas pausas entre os saltos de frequência.

Ainda assim, o FHSS permanece como a escolha principal para sistemas onde a integridade da conexão é importante:

  • Bluetooth: O padrão Bluetooth é a implementação comercial mais difundida desta tecnologia. Operando na congestionada banda ISM de 2.4 GHz, ele utiliza FHSS para realizar 1600 saltos por segundo. Além disso, implementa o Adaptive Frequency Hopping (AFH), um algoritmo que mapeia e exclui da sequência de salto os canais que já estão sendo utilizados por redes Wi-Fi próximas, garantindo estabilidade de áudio e dados sem causar interferência mútua.
  • Comunicações Militares: Em cenários de defesa, sistemas de rádio tático dependem do FHSS para segurança operacional. A mudança constante e pseudoaleatória de frequência dificulta que inimigos interceptem a comunicação (Low Probability of Intercept) ou provoquem jamming.
  • IoT Industrial: No ambiente de chão de fábrica, motores, inversores de frequência e outras máquinas geram ruídos que podem derrubar sinais de frequência fixa. Alguns protocolos usados em comunicações de Internet das Coisas (IoT) utilizam o FHSS para contornar essas interferências momentâneas. Variantes modernas, como o LR-FHSS (Long Range – FHSS), permitem que sensores transmitam dados críticos a longas distâncias, superando barreiras de ruído que degradariam outras formas de modulação.

Conclusão da Análise FHSS

O Frequency Hopping Spread Spectrum (FHSS) é uma solução engenhosa que cumpre a proposta inicial de Hedy Lamarr: fazer com que a mensagem chegue ao destino, mesmo em ambientes sujeitos a interferências.

No entanto, há outra forma de proteger o sinal. Enquanto o FHSS salta para fugir do ruído, existe uma outra técnica de espalhamento espectral que opta por se esconder dentro dele (camuflagem).

Figura 4 – Diferenças entre os espectros de frequências FHSS e DSSS – Fonte: Wideband Modulation

No próximo artigo, vamos explorar o Direct Sequence Spread Spectrum (DSSS). Descubra o mecanismo de espalhamento contínuo, onde o sinal de informação é multiplicado por um código pseudoaleatório (PRN).

Essa técnica de correlação permite que o sinal seja recuperado de forma limpa no receptor, mesmo quando sua potência está abaixo do nível do ruído — o princípio fundamental que viabiliza tecnologias de navegação por satélite como o GPS.

Referências

Spread Spectrum

Hedy Lamarr: Inteligência e Beleza na Origem do Spread Spectrum A Estratégia da Camuflagem (DSSS)
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