A chegada às lojas do novo smartphone Huawei Mate Pro 60 não é apenas mais um capítulo na corrida por market share de smartphones topo de linha, mas tem um impacto na geopolítica tecnológica que não deve ser subestimado: o processador Kirin 9000s, a alma do smartphone, é baseado em um chip de 7 nanômetros, até agora considerado impossível de ser produzido na China devido ao embargo sobre as tecnologias necessárias para sua fabricação.

No curto prazo, a produção do Kirin 9000s tem repercussões práticas muito relevantes, principalmente em termos comerciais, pois   graças ao novo chip, a Huawei pode desafiar a Apple e seu iPhone no mercado chinês, potencialmente conquistando participação em um dos mercados mais importantes e, talvez, em outros também.

No entanto, em termos geopolíticos a repercussão será maior: o governo americano, surpreso pelo lançamento, iniciou uma investigação para entender como a China conseguiu obter esse chip apesar do embargo.

À espera dos resultados da investigação, há uma certeza: a China demonstrou ser capaz de produzir semicondutores que a permitem competir com os americanos, inclusive em áreas sensíveis, como a militar e a de inteligência artificial; é também uma vitória chinesa em termos de propaganda.

Além disso, como observado pela pesquisadora Megha Shrivastava em um artigo publicado na revista The Diplomat, a produção do Kirin 9000s levará os Estados Unidos a ampliar ainda mais suas sanções e medidas de controle de exportações. 

Como resultado, seus aliados participantes na cadeia de valor de semicondutores — Coreia do Sul, Taiwan, Alemanha e Países Baixos, que suportaram o peso das políticas americanas com perdas de receitas do mercado chinês, terão cada vez mais dificuldades em colaborar com os Estados Unidos.  Em outras palavras, não seria fácil para os americanos imporem mais restrições às empresas de países amigos sem conceder algo em troca.

É cedo para avaliar totalmente as consequências do sucesso chinês — por exemplo, ainda não está claro se a produção desse chip pode crescer de forma economicamente sustentável, mas Pequim certamente deu mais um passo em direção à autossuficiência em alta tecnologia.