O FTF (Freescale Technology Forum) é um evento anual da Freescale focado em reunir parceiros, distribuidores e clientes para discutir produtos e soluções baseadas em Freescale.
Este ano tive a oportunidade de participar do evento, que deixou boas recordações e a impressão de ser um dos melhores (se não o melhor) evento da área que já participei.
O evento aconteceu em Dallas/TX, com uma infraestrutura fantástica, ótimo hotel, boa organização e palestras de muita qualidade.
Durante os 4 dias do evento, tivemos alguns keynotes, diversas palestras e muito bate-papo com os expositores e participantes no Tech Lab.
DIA 1
O evento começou à tarde com duas ótimas palestras sobre multicore do Joe Hummel da Freescale. Após explicar os conceitos de multicore, ele nos mostrou um exemplo prático onde, usando alguns recursos de multicore e técnicas de programação, foi possível fazer com que um programa que levava 38 para executar, levasse apenas 1 segundo! Ele deixou bem claro também como devemos nos preocupar com a memória, em especial a memória cache, em sistemas multicore. Depois ele nos mostrou a ferramenta cachegrind, parte do valgrind, usada para analisar o uso do cache por uma aplicação, essencial para melhorar a performance de aplicações em sistemas multicore.
Logo após esta apresentação assisti uma palestra sobre o uso de ferramentas open source em Linux, incluindo perf e oprofile.
Às 18:00 fomos para o Technology Lab, onde os parceiros da Freescale estavam expondo diversas demos de produtos utilizando soluções da Freescale.
Uma das demos bem interessantes era um carro-modelo da Freescale, com mais de 20 CPUs em módulos diferentes, se comunicando via CAN e Ethernet, para gerenciar todas as partes do veículo.
DIA 2
O segundo dia do FTF2014 começou com o keynote de Gregg Lowe, presidente e CEO da Freescale.
O keynote começou com 1 minuto de silêncio em respeito aos funcionários da Freescale que estavam à bordo do avião que desapareceu na Malásia.
Depois o keynote seguiu com algumas estatísticas da Freescale no mercado global de semicondutores, como o fato dela ser a número 1 em chips para a área automobilística nos EUA.
Alguns convidados foram chamados para mostrar projetos envolvendo tecnologias da Freescale, como o OrCam para deficientes visuais e um gateway chamado One Box desenvolvido em conjunto com a Oracle para soluções de IoT.
O keynote terminou com a apresentação divertida do VoiceLive, capaz de transformar uma pessoa em uma banda completa! O vídeo da apresentação está disponível no YouTube.
Como todo keynote de CEO, é possível ter uma idéia sobre onde a empresa está apostando suas fichas. E pelo keynote ficou a impressão de que a Freescale está apostando forte no conceito de IoT, com a linha Kinetis responsável pela interface com o mundo físico e aplicações de tempo real, a linha i.MX responsável por interfaces ricas e conectividade e a linha QorIQ, responsável pela infraestrutura de comunicação como gateways e switches.
Ainda pela manhã participei de um hands-on sobre debugging em microcontroladores multicore. A seção foi realizada em cima do MPC5748G, um microcontrolador da linha Qorivva para o mercado automotivo, com 3 cores de arquitetura Power. Tinhamos 3 aplicações, e cada uma deveria rodar em um core e piscar um led. Mas uma das aplicações não estava funcionando, e utilizamos a ferramenta Trace32 para realizar o processo de depuração em um dos cores.
À tarde participei de uma palestra do pessoal da Wind River sobre o projeto Yocto. Nenhuma novidade.
Depois assisti uma apresentação de 2 horas bem bacana sobre os componentes do i.MX6 responsáveis pelo processamento gráfico, incluindo IPU e VPU. A apresentação incluiu tanto o lado teórico quanto a parte prática, através do desenvolvimento de aplicações em C se comunicando direto direto com a IPU via framebuffer para exibir imagens estáticas no display, e a utilização do gstreamer com aceleração gráfica para tocar vídeos em HD.
Dia 3
O dia começou com mais um keynote, e mais uma vez focado na “Internet das coisas”, onde muitos executivos da Freescale subiram ao palco para contar um pouco sobre como suas respectivas áreas estão lidando com IoT.
Logo após o keynote assisti uma palestra da Sysgo sobre certificação de sistemas multicore. A palestra focou no uso do PikeOS, um sistema de tempo real e plataforma de virtualização que pode por exemplo ajudar na certificação de soluções híbridas que usam Linux ou Android.
Depois assisti uma palestra bem legal sobre o uso de sistemas multicore heterogêneos, como um SoC com ARM Cortex-A8 e Cortex-M4 integrados. Este tipo de solução pode ser aplicada por exemplo em sistema automotivos, onde o Cortex A é responsável pela interface com o usuário e comunicação via rede e o Cortex M é responsável pela comunicação com o barramento CAN e pelo tratamento de eventos de tempo real.
Para ajudar o desenvolvedor de aplicações à sincronizar a execução do código nos diferentes núcleos, o SoC possui diversos recursos de hardware como semáforos, passagem de mensagens e memória compartilhada.
No fim do dia tive a oportunidade de assistir uma palestra da Adeneo sobre como melhorar o tempo de boot em sistemas Linux. Muitas das técnicas apresentadas na palestra estão disponíveis em https://elinux.org/Boot_Time, mas valeu à pena para rever alguns conceitos.
O restante do dia passei no Tech Lab visitando mais alguns estandes.
O pessoal da IAR me apresentou uma nova funcionalidade chamada C-RUN, capaz de fazer análise dinâmica do código (em tempo de execução), e checar erros como heap overflow, estouro de inteiro e divisão por zero. Achei bem interessante. Não conheço nehuma outra IDE com análise dinâmica de código integrada.
Passei também pelo estande da WaRPboard e conheci seu criador. A WaRPboard é uma plataforma 100% aberta de wearables. O projeto é muito interessante. Segundo ele, já estão produzindo um lote de 20.000 que estarão disponíveis até agosto/2014.
DIA 4
O dia foi curto mas intenso, com um keynote muito inspirador e duas palestras de 1 hora.
O keynote foi apresentado por Dean Kamen. Um cara bastante simples e com uma capacidade de criação incrível, que em mais de 30 anos, tem usado a tecnologia para melhorar a vida das pessoas.
É o fundador da DEKA Research & Development Corporation, responsável por criações como o Segway Human Transporter e o iBOT Mobility System, feito para auxiliar a locomoção de deficientes físicos.
É também o idealizador da FIRST, uma organização feita com o intuito de incentivar os jovens a se interessarem por ciência e tecnologia.
A FIRST leva anualmente centenas de milhares de jovens à uma competição de robôs por todo o país, despertando em muitos deles o interesse por ciência e tecnologia. Um vídeo narrado por Morgan Freeman mostra o tamanho do evento e desta organização. É um exemplo claro de como não precisamos depender do governo para mudar a educação do país.
A primeira palestra que assisti foi sobre práticas de programação em ambientes multicore. A idéia é definir um padrão para o desenvolvimento de sistemas multicore, onde um kernel (ex: Linux) rodando em um core pode trocar dados e sincronizar com outro kernel (ex: FreeRTOS) rodando em outro core.
O padrão é mantido pela Multicore Association, que inclui diversas empresas da área como Freescale, Texas Instruments, Broadcom, National Instruments, Qualcomm, Renesas, Wind River, etc. O padrão é aberto e está disponível para download.
Depois assisti uma palestra sobre as funcionalidades de segurança no i.MX6. Tema bem interessante, mas faltou didática e tempo ao palestrante para explicar com mais detalhes o funcionamento de algumas funcionalidades como boot seguro, criptografia, debug seguro e hardware firewall disponíveis no i.MX6.
NOVIDADES?
Nenhuma grande novidade foi apresentada no evento. Nenhuma inovação ou tecnologia disruptiva. O que tenho visto é apenas uma evolução da tecnologia, que está possibilitando colocar em prática e transformar em produtos conceitos e idéias que antes seriam inviáveis.
Duas tendências que percebi no evento foram chips multicore e foco em IoT. Os conceitos são antigos, mas agora viabilizados pela evolução da tecnologia. Chips menores, maior capacidade de processamento, mais memória e armazenamento, menor consumo, etc.
É nessa linha de pensamento que a Freescale lançou no FTF2014 novos microcontroladores incluindo o Qorivva MPC560xE para a linha automotiva, Kinetis K2, Kinetis V e novos processadores da linha QorIQ.
IMPRESSÕES GERAIS
Ótimo evento, infraestrutura excelente e público-alvo bem focado e direcionado aos profissionais da área. Foram quase 2.000 pessoas segundo o feedback que recebi dos organizadores do evento.
Muitas opções de palestras para assistir, com mais de 15 trilhas acontecendo ao mesmo tempo. Gostei da maioria das palestras que assisti, boa parte com temas bem interessantes. É verdade que, em algumas delas, faltou um pouco de didática por parte do palestrante.
Muitas demonstrações interessantes dos expositores no Tech Lab, que ficou bastante movimentado durante as paradas na hora do almoço e no final do dia.
Enfim, um investimento que vale à pena. Espero retornar nas próximas edições.
Um abraço!







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